LIVRE ARBÍTRIO OU DESTINO
Testemunho de um Passageiro da Agonia
Onde está Deus nisso tudo?
Demorei uma vida inteira pra perceber que talvez Ele esteja justamente no tudo, tão dissolvido no caos que a gente já não consegue mais distingui-lo.
A liberdade talvez seja a forma mais elegante que Deus encontrou pra se esconder.
Livre arbítrio… que ironia amarga.
Chamam de dádiva, mas às vezes soa como sentença.
Ser livre é ser condenado a escolher e, ao escolher, carregar o peso do que ainda não se sabe compreender.
Já vivi dias em que exercer o livre arbítrio era flutuar num redemoinho:
ora o predador, cheio de ímpeto e soberania,
ora a presa, fugindo da própria sombra,
cansado, ferido, tentando manter o fôlego dentro do caos.
E no meio disso: suor, desespero, e uma esperança teimosa, aquela que insiste em não morrer. O corpo paga a conta, a psique cobra juros, e o nosso ser,
só observa, mudo, paciente, como se já tivesse visto essa cena mil vezes em outras vidas.
Vida espiritual? Tranquila?
Quem inventou isso nunca soube o que é atravessar o próprio deserto.
Traduzo e creio imensamente que o caminho espiritual é parto. E parto dói, dilacera, arranca tudo o que você pensava ser seu.
É a dor consciente, a ferida aberta sem anestesia, o inferno que queima por dentro.
No livre arbítrio, a dor é traiçoeira: chega quando você acredita que está tudo pronto.
Na vida espiritual, a dor é caminho, é rito, é iniciação.
Você sabe que vai doer, mas crê, sem garantias, que há propósito em cada espasmo, como se o próprio Universo dissesse: “Aguenta. É só um parto. Depois, tudo se dissipa.”
Penso que a chave do paraíso se é que existe não está em escapar da dor,
mas em atravessá-la com paciência, até que ela se transforme em sabedoria.
Talvez o propósito de tudo isso não seja entender, mas testemunhar ou compreender que, apesar de tudo, algo em nós necessita transcender.
Hoje eu vejo: o livre arbítrio é a criatura dentro do homem querendo recriar Deus a todo custo, imperfeita, teimosa, tropeçando, quebrando-se, recriando-se no escuro.
Querendo criar o mundo de novo, de fora pra dentro, com as próprias mãos esfoladas e ensanguentadas.
Mas o ser espiritual…
ah, esse seria outro movimento.
Seria a criatura buscando Deus dentro de si,
seria toda a criação tocando o homem pra voltar a ser essência,
aprendendo, traduzindo, experienciando, recriando-se de dentro pra fora.
E talvez seja isso o milagre:
descobrir que Deus nunca esteve fora,
que o nosso inferno é apenas o útero, o fogo da transformação,
e que, no fim, o livre arbítrio e o despertar são a mesma travessia,
vista de lados opostos do ser.
Esta é a minha travessia..

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