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SEM RUÍDOS

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  Houve um período em que tudo parecia estar funcionando, ao menos na superfície. As coisas aconteciam, decisões eram tomadas, problemas surgiam e eram resolvidos antes que crescessem demais. Ainda assim, algo permanecia tenso, como se fosse necessário um esforço constante para manter esse equilíbrio. Não era algo fácil de apontar. Apenas se percebia um cansaço que não vinha do corpo, mas da tentativa contínua de antecipar o que poderia sair do controle. Em algum ponto, sem um evento marcante ou uma decisão consciente, isso começou a ser observado de outro jeito. Não como algo a ser corrigido, mas como um padrão silencioso. Havia uma tendência quase automática de imaginar cenários, prever riscos, criar respostas antes mesmo de saber se seriam necessárias. Curiosamente, quanto mais isso acontecia, mais espaço havia para que pequenos acontecimentos ganhassem peso desproporcional. Quando esse movimento foi notado, não surgiu a urgência de mudar. Houve apenas uma interrupção sutil. M...

Fé - Ciência - Probabilidade - Sincronicidade

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  Existe um comportamento silencioso em curso. Pouco perceptível, quase elegante, mas profundamente limitante. Estamos sendo conduzidos a trocar o livre pensamento por identidade. E identidade, quando cristaliza, deixa de ser referência e passa a ser prisão. Hoje, o “certo” não é pensar, mas se posicionar: ser racional demais, espiritual demais, cético demais. Não por coerência interna, mas por pertencimento externo. O desejo de poder, validação e controle aprendeu a se vestir de filosofia de vida.   Meu ponto de vista é que vivemos entre quatro realidades ou universos paralelos que nunca foram inimigos entre si: fé, ciência, probabilidade e sincronicidade.  O problema começa quando escolhemos apenas um deles como verdade absoluta e exigimos que todo o resto da vida se submeta a essa lente.   A fé é um salto.  Não o salto infantil que terceiriza decisões e espera que algo externo resolva, mas o salto adulto que acontece quando não há garantias. Fé, nesse...

ENTRE

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  No início, não parecia nada. Não houve inscrição consciente, nem decisão solene, nem a sensação clara de estar começando algo. O que houve foi apenas a impressão de ter atravessado um limite invisível, como quando se entra em um lugar sem perceber a porta. As coisas começaram a se alinhar de um jeito difícil de explicar. Um encontro acontecia aqui, uma conversa surgia e não se prolongava, um silêncio se fazia presente sem causar incômodo. Não havia promessa alguma, ninguém dizendo o que fazer, nenhuma verdade nova à qual se agarrar. Ainda assim, algo sustentava. (alguns reconhecem onde isso começa) Com o tempo, começaram a surgir encontros silenciosos, não para pedir, nem para exigir, mas apenas para manter. Em outros momentos, apareciam orientações pontuais que não tentavam explicar a vida, apenas evitavam desvios óbvios. Aos poucos, encontros presenciais passaram a acontecer sem parecer eventos, sem clima de espetáculo ou expectativa elevada. Não eram intensos. Eram precisos. N...

Nem Toda Dor Pede Cura. Algumas São Acordos.

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O corpo sempre sabe onde tudo começou. Problemas não chegam como inimigos. Chegam como sapatos baratos de feira: bonitos, disponíveis, com cara de solução imediata. Preço bom demais para pensar duas vezes. No primeiro passo, apertam. O corpo avisa — sempre avisa. Mas aprendemos cedo a chamar aviso de exagero, sensibilidade, fraqueza. Insistimos. Porque parar assusta mais do que doer. Então começa o pacto silencioso. A gente aguenta. O corpo compensa. O pé cria calo onde criamos justificativa. Um osso se desajusta porque nos recusamos a admitir o erro. O tornozelo aceita o que não devia. O joelho sustenta decisões que não são dele. O quadril carrega histórias antigas, mal resolvidas. A coluna vira arquivo vivo de tudo o que foi empurrado para depois. Nada disso é castigo. É inteligência biológica tentando manter-nos em movimento mesmo quando o caminho já não é verdadeiro. Com o tempo, a dor muda de lugar. Isso não é melhora. É anestesia bem-sucedida. Adaptamo-nos ao erro. E passamos a c...

O Tempo é Implacável em Sua Sabedoria

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Existem problemas que não chegam para destruir. Chegam para alinhar. São pequenos ajustes, quase invisíveis. Como uma corda de violão fora do tom. Nada quebra. Nada dói de imediato. Só… soa estranho. A vida começa a perder harmonia, mas ainda dá pra tocar. E é exatamente aí que a gente falha. Quando o problema está dentro da nossa alçada, a gente ignora. Não por maldade. Por soberba silenciosa. Temos coisas “mais importantes”. Prazos. Contas. Gente esperando. E aquele ajuste fino parece banal demais pra parar tudo. “Depois eu vejo isso.” Só que problema ignorado não some. Ele trabalha. Em silêncio. Como ferrugem que não faz barulho. Enquanto isso, outras áreas começam a sentir. O corpo reclama. O humor muda. As relações ficam ásperas. O sono falha. Mas a gente ainda chama isso de fase. Aí entramos na fase do remendo rápido. Um remédio aqui. Uma distração ali. Qualquer coisa que devolva funcionalidade sem exigir responsabilidade. Não dá pra parar agora. Nunca dá. Quando já não é só um p...

Leitura Terapêutica Indireta

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  Aprendi cedo a trabalhar com leitura terapêutica indireta. Talvez por isso algumas pessoas reclamem dos textos longos. 😂 Não é falta de objetividade. É excesso de efeito com sentido. Leitura terapêutica indireta não ensina. Ela acorda. Milton Erickson, hipnoterapeuta naturalista, já dizia  mesmo quando não dizia: o inconsciente não aprende por instrução. Ele se move por reconhecimento. Por isso, se em algum momento você sentir vontade de continuar lendo sem saber exatamente por quê, ou sentir vontade de abandonar a leitura pelo mesmo motivo; não é curiosidade intelectual, nem preguiça intelectual. É algo em você respondendo. Leitura terapêutica indireta não entrega algo novo. Ela toca algo antigo demais para ter nome. Algo que já estava aí, apenas esperando um pretexto para emergir. Ela não concorre com a leitura informativa, que organiza conceitos, nem com a leitura motivacional, que tenta empurrar estados emocionais goela abaixo. Aqui não se empurra nada. Aqui algo se des...

O Xamã e a Alquimia do Invisível

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  O xamã aprendeu cedo a caminhar pelos corredores onde os alquimistas falavam de cura como quem comenta o clima: leveza ensaiada, pose calculada e olhos treinados para parecerem profundos. As palavras brilhavam, as roupas também. Mas a trilha não enganava quem sabia farejar verdade. Ele percebia o cheiro doce demais, não era sabedoria, era vaidade polida. Oito partes de ritual, duas partes de intenção real. Com o tempo, afastou-se das rodas barulhentas e seguiu para dentro da mata, onde ninguém precisava provar nada. Ali descobriu o que realmente acontece quando um alquimista quer mudança de verdade: lapidação não é adorno, é corte. E quando existe essência, o processo é cru e direto. Oito partes de casca indo embora, duas partes de núcleo reluzindo. Ele via isso nos poucos que tinham coragem: desmontando personagens, largando fachadas, soltando defesas até restar apenas o que sempre foi puro. Mas também encontrou o outro tipo de alquimista, o que chegava cheio de discursos e vazi...

Cura não é apagar sintomas. É entender o caminho.

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  Ao longo da minha jornada no campo das dores físicas, inevitavelmente adentrei o território metafísico . Não por crença, nem por moda espiritual, mas por esgotamento do óbvio. Quando você toca corpos por anos, escuta tecidos, observa padrões de dor que não obedecem à anatomia clássica, torna-se impossível sustentar a fantasia de que o ser humano é apenas músculo, osso e bioquímica bem-comportada. A dor ensina. E ensina rápido. Ela revela que o corpo fala quando a consciência se cala. Como quase todos, no início busquei respostas nos métodos. Técnica. Protocolo. Nome sofisticado. Curso novo. A promessa de que aquele método seria a chave. Não foi. Nenhum foi sozinho. Cada nova abordagem funcionava por um tempo… até parar. Não porque o método fosse ruim, mas porque o corpo não é ingênuo e a consciência não gosta de atalhos. Foi aí que a ficha caiu: cura não é método. Cura é processo. Cura é ecossistema. A medicina alopática é brilhante quando o problema é mecânico, químic...

Cura não é milagre. É manutenção.

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  O corpo não quebra do nada — ele cansa de avisar Vou falar do jeito mais simples possível. Sem incenso. Sem promessa milagrosa. Sem frase bonita pra enganar dor antiga. Sabe quando o carro começa a fazer um barulho estranho? Não parou. Ainda anda. Dá pra ir empurrando. Aí você aumenta o som do rádio. Fecha o vidro. Finge que não ouviu. Até o dia em que o carro para de vez no meio da estrada. O problema não nasceu naquele dia. Ele só foi ignorado tempo demais . Com o corpo é igual. Só que a gente chama de “doença” pra parecer algo mais elegante do que descuido acumulado . 👉 comunidade metafisica  O corpo avisa. A gente é que se faz de surdo Primeiro vem um cansaço estranho. Depois uma dorzinha que “vai e volta”. Depois um travamento. Depois uma crise. E a gente responde assim: “Ah, deve ser estresse.” “É a idade.” “Depois eu vejo isso.” Até virar: “Agora é crônico.” “Não tem mais o que fazer.” Tem sim. Só que o preço ficou mai...

DEUS NOS VÊ NO DESERTO

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Ela não ficou órfã porque os pais morreram. Ficou órfã porque o mundo decidiu que ela não valia nada. Grávida, nova, sem rumo… o marido e a própria família deram as costas. Rejeitaram. Desprezaram. Tiraram ela do lugar de filha, de esposa, de gente. Jogaram pra fora da vida deles como se fosse um peso. Quando teve o bebê, voltou pra casinha montada com carinho, acreditando que finalmente teria um porto. Nada. O marido passou uma noite ali, todo feliz com ela e o filho… e no dia seguinte desapareceu. Sem explicação. Sem arrependimento. Sem assumir nada. Voltou pra casa da mãe como se nada tivesse acontecido — e seguiu a vida dele. Nem pensão. Nem ajuda. Nem uma mão estendida. Ela ficou sem colo. Sem rede. Sem ninguém pra segurar o filho enquanto ela respirava um pouco. O mundo fez dela uma órfã. E quando alguém é tratado como ninguém, acaba acreditando nisso. Ela quase despencou: qualquer cara da rua queria usar, descartar, terminar de destruir o restinho de valor que sobrava nela. Era ...

Vínculos Que Reparam: A Ciência Oculta da Regeneração Social

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  Quando abraços viram enzimas: como vínculos humanos podem “reprogramar” inflamação e reparo celular Resumo Há evidência crescente de que o ambiente social — qualidade de laços, sensação de suporte e isolamento social — ativa vias neurais e endócrinas que regulam expressão gênica em células imunes, amplificando ou atenuando programas pró-inflamatórios e, possivelmente, influenciando mecanismos de reparo celular e envelhecimento biológico. Essa área emergente chama-se genômica social humana e intersecta epigenética, oxitocina, estresse crônico e medidas de inflamação sistêmica. Aqui eu sintetizo o que já sabemos, o que ainda é hipótese plausível e como isso corta direto para práticas terapêuticas e filosóficas. PLOS+1 1. O mapa — do social ao genômico Pesquisas mostram um padrão recorrente: situações sociais adversas (isolamento, rejeição crônica, exclusão) tendem a disparar um padrão transcricional conservado — chamado Conserved Transcriptional Response to Adversit...