Nem Toda Dor Pede Cura. Algumas São Acordos.
O corpo sempre sabe onde tudo começou.
Problemas não chegam como inimigos.
Chegam como sapatos baratos de feira:
bonitos, disponíveis, com cara de solução imediata.
Preço bom demais para pensar duas vezes.
No primeiro passo, apertam.
O corpo avisa — sempre avisa.
Mas aprendemos cedo a chamar aviso de exagero,
sensibilidade, fraqueza.
Insistimos.
Porque parar assusta mais do que doer.
Então começa o pacto silencioso.
A gente aguenta.
O corpo compensa.
O pé cria calo onde criamos justificativa.
Um osso se desajusta porque nos recusamos a admitir o erro.
O tornozelo aceita o que não devia.
O joelho sustenta decisões que não são dele.
O quadril carrega histórias antigas, mal resolvidas.
A coluna vira arquivo vivo de tudo o que foi empurrado para depois.
Nada disso é castigo.
É inteligência biológica tentando manter-nos em movimento
mesmo quando o caminho já não é verdadeiro.
Com o tempo, a dor muda de lugar.
Isso não é melhora.
É anestesia bem-sucedida.
Adaptamo-nos ao erro.
E passamos a chamá-lo de normal.
Até que o corpo cobra juros.
A lombar grita.
A cervical trava.
O meio das costas queima.
Aí começa a peregrinação.
Cursos. Técnicas. Academias. Terapias. Promessas rápidas.
Ortopedia. Correções. Sapatos novos.
Mas agora já não adianta.
Vai doer demais mudar tudo de uma vez.
E o estrago não está mais no pé —
espalhou-se pelo corpo inteiro.
Então nasce a confissão íntima, quase vergonhosa:
“Melhor o antigo.”
“Pelo menos eu conheço essa dor.”
“Ela me destrói devagar.”
“É quase homeopática.”
E continuamos.
Não por conforto.
Mas por medo do desconforto verdadeiro.
Neste rito, ninguém corre para trocar o sapato.
Primeiro, paramos.
Paramos de negociar com a dor.
Paramos de romantizar resistência.
Paramos de chamar sobrevivência de força.
Aqui, a pergunta não é:
“Quanto isso ainda aguenta?”
É:
“O que em mim precisou se deformar para isso caber?”
Se escolhemos continuar, que seja lúcido.
Sem mentira espiritual.
Sem heroísmo vazio.
Mas se escolhemos tirar o sapato, saibamos:
o chão vai doer.
Os pés estarão sensíveis.
O corpo vai reclamar da verdade.
E esse é o preço da reiniciação.
Porque o corpo só começa a curar
quando não precisa mais compensar
a covardia da alma
nem sustentar escolhas que já perderam sentido.
Quando esse rito termina,
uma coisa muda para sempre:
Não calçamos mais qualquer sapato.
Não chamamos mais dor de caminho.
E não seguimos andando
só porque aprendemos a aguentar.

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