Fé - Ciência - Probabilidade - Sincronicidade

 


Existe um comportamento silencioso em curso. Pouco perceptível, quase elegante, mas profundamente limitante. Estamos sendo conduzidos a trocar o livre pensamento por identidade. E identidade, quando cristaliza, deixa de ser referência e passa a ser prisão. Hoje, o “certo” não é pensar, mas se posicionar: ser racional demais, espiritual demais, cético demais. Não por coerência interna, mas por pertencimento externo. O desejo de poder, validação e controle aprendeu a se vestir de filosofia de vida.

 

Meu ponto de vista é que vivemos entre quatro realidades ou universos paralelos que nunca foram inimigos entre si: fé, ciência, probabilidade e sincronicidade. O problema começa quando escolhemos apenas um deles como verdade absoluta e exigimos que todo o resto da vida se submeta a essa lente.

 

A fé é um salto. Não o salto infantil que terceiriza decisões e espera que algo externo resolva, mas o salto adulto que acontece quando não há garantias. Fé, nesse sentido, é coragem para agir quando não é possível enxergar o próximo passo. Fé madura não substitui ação, não anula responsabilidade e não dispensa discernimento. Pelo contrário, ela exige decisão. Curiosamente, a fé verdadeira costuma nos conduzir à ciência, porque quem decide agir quer entender, quer compreender o que está fazendo e por que está fazendo.

 

A ciência é um mapa. Ela mede, testa, repete, corrige e, quando saudável, admite que ainda não sabe tudo. O problema surge quando a ciência deixa de ser ferramenta e passa a ser identidade. Nesse ponto, ela se transforma em religião com outra estética. Houve um tempo em que bebíamos água simplesmente porque tínhamos sede. Não sabíamos explicar osmose, eletrólitos ou processos bioquímicos, mas o corpo sabia. Hoje, explicamos tudo, mas muitas vezes desaprendemos a escutar. Ganhamos precisão, mas perdemos consciência *crendo* que é despertar de consciência. Nem tudo o que transforma o humano cabe em um gráfico.

 

A probabilidade entra como realismo estratégico. Ela ensina a lidar com risco, margem de erro e cenários possíveis. O problema é viver apenas por ela. Se esperamos 99,99% de garantia para agir, nunca damos passos reais. A vida não oferece cem por cento de certeza. Em algum ponto, mesmo com dados, cálculos e estatísticas, será necessário um passo de coragem, novamente sustentado pela fé e pela ciência. A probabilidade sozinha transforma a vida em uma planilha emocional, segura, previsível e estéril.

 

A sincronicidade é escuta fina. Não é superstição, é percepção. Ela nasce do encontro entre fé, ciência e probabilidade, quando estamos atentos aos padrões e aos movimentos da realidade. Mas, quando se torna bússola única, paralisa. A pessoa para de decidir e passa a esperar sinais. O universo vira desculpa para a falta de posicionamento, e a vida vira um ciclo de interpretações sem ação, como alguém correndo atrás do próprio rabo.

Alguns pensadores nos convidam a flutuar entre esses sistemas ao longo da vida. Isso é maturidade. Outros perceberam que é mais rápido, mais simples e muitas vezes mais lucrativo se fixar em uma única vertente e defendê-la como verdade absoluta. Isso também é uma escolha, desde que se arque com o preço. O problema não é escolher uma lente, mas acreditar que o mundo tem obrigação de girar em torno da filosofia que escolhemos para nós.

 

Cada fase da vida pede uma lente diferente. Às vezes precisamos de fé porque não há dados. Às vezes de ciência porque estamos nos enganando. Às vezes de probabilidade porque o risco é alto. Às vezes de sincronicidade porque desaprendemos a observar. O erro é tentar desconstruir tudo depois que algo finalmente faz sentido, como se maturidade fosse negar o próprio caminho.

 

No fim, não é Deus, nem a ciência, nem o universo, nem o acaso que definem nossa experiência. São ferramentas. Nós somos o observador e o operador. Quer viver só pela fé, ótimo. Só pela ciência, ótimo. Misturar tudo, tudo bem. Mas o marido, a esposa, os filhos, os pais, os amigos e os clientes não têm obrigação nenhuma de viver segundo a filosofia que escolhemos aplicar à nossa própria vida.

 

A vida, no fim das contas, não nos pergunta no que acreditamos. Ela pergunta, de forma direta e implacável; o que fizemos com aquilo que escolhemos seguir?






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