DEUS NOS VÊ NO DESERTO


Ela não ficou órfã porque os pais morreram.

Ficou órfã porque o mundo decidiu que ela não valia nada.


Grávida, nova, sem rumo… o marido e a própria família deram as costas. Rejeitaram. Desprezaram. Tiraram ela do lugar de filha, de esposa, de gente. Jogaram pra fora da vida deles como se fosse um peso.


Quando teve o bebê, voltou pra casinha montada com carinho, acreditando que finalmente teria um porto. Nada. O marido passou uma noite ali, todo feliz com ela e o filho… e no dia seguinte desapareceu. Sem explicação. Sem arrependimento. Sem assumir nada. Voltou pra casa da mãe como se nada tivesse acontecido — e seguiu a vida dele. Nem pensão. Nem ajuda. Nem uma mão estendida.


Ela ficou sem colo.

Sem rede.

Sem ninguém pra segurar o filho enquanto ela respirava um pouco.


O mundo fez dela uma órfã.


E quando alguém é tratado como ninguém, acaba acreditando nisso. Ela quase despencou: qualquer cara da rua queria usar, descartar, terminar de destruir o restinho de valor que sobrava nela. Era assim que enxergavam: sobra.


Mas alguém viu. Viu o desespero e viu o perigo. Foi até ela e disse: “Eu te ajudo.”

Colocou na mão dela a própria Bíblia, velha, rabiscada, cheia das dores dele. Aquilo era mais que um livro; era a única verdade que ele tinha pra oferecer. E ofereceu.


Um dia, quando foi visitá-la, encontrou a cena: ela caída, exausta, mas agarrada naquele livro como quem segura a última corda antes de afundar. Ali ele sentiu: aquela menina, que o mundo tinha deixado órfã, ainda queria sobreviver. E sentiu também que Deus ia levantar ela de um jeito que ninguém imaginava.

E levantou.

Ela se ergueu da própria ruína.

Cuidou do filho.

Trabalhou.

Estudou.

Fez faculdade. Virou arquiteta.

Conheceu um homem decente, que não tratou ela como resto. Assumiu ela e o menino. Viraram família. Compraram uma casa. O filho hoje faz faculdade no interior. E ela, que um dia foi rejeitada, se reconciliou até com os pais. Justo aqueles que não souberam segurar a filha quando ela mais precisava.


Mas não se engane:

Ela não venceu por causa de ninguém.

Ela venceu apesar de tudo.


Nunca subestime alguém que o mundo deixou sozinho.

Deus anda do lado dos órfãos, dos esquecidos, dos descartados.


E Ele sabe transformar quem era órfão do mundo… em dono da própria história

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