O Xamã e a Alquimia do Invisível
O xamã aprendeu cedo a caminhar pelos corredores onde os alquimistas falavam de cura como quem comenta o clima: leveza ensaiada, pose calculada e olhos treinados para parecerem profundos. As palavras brilhavam, as roupas também. Mas a trilha não enganava quem sabia farejar verdade. Ele percebia o cheiro doce demais, não era sabedoria, era vaidade polida. Oito partes de ritual, duas partes de intenção real.
Com o tempo, afastou-se das rodas barulhentas e seguiu para dentro da mata, onde ninguém precisava provar nada. Ali descobriu o que realmente acontece quando um alquimista quer mudança de verdade: lapidação não é adorno, é corte. E quando existe essência, o processo é cru e direto. Oito partes de casca indo embora, duas partes de núcleo reluzindo. Ele via isso nos poucos que tinham coragem: desmontando personagens, largando fachadas, soltando defesas até restar apenas o que sempre foi puro.
Mas também encontrou o outro tipo de alquimista, o que chegava cheio de discursos e vazio de conteúdo. Tentavam lapidar e chegar na própria pedra interior, mas não havia pedra alguma. Só camadas de aparência. E quando tiravam tudo… sobrava o nada. Não o nada fértil que prepara um novo ciclo, mas o nada que nunca teve raiz. Um vazio seco, silencioso, sem vida.
Entre o barulho da cidade e o silêncio da floresta, o xamã finalmente entendeu a mecânica oculta: lapidação não cria essência, revela essência ou denuncia o vazio. O resto é vitrine. O resto é ruído. E quem anda tempo suficiente pela mata aprende a distinguir: alguns têm um brilho escondido. Outros só parecem reluzir… até que as primeiras cascas começam a cair.

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